Essa saudade eu sei de cor
Sei o caminho dos barcos
- Renato Russo, Os Barcos .
Barcos sempre nos falam de partidas e adeuses.Os barcos de Fernanda Miguel são como homens, suas fotografias os fazem donos de uma dignidade toda humana. As representações dessas humildes embarcações ancoradas, atoladas na lama, solitárias de seus pescadores, nos impõem o maravilhamento de descobrir que barcos, quais moças enamoradas e seus olhos de maresia, também esperam inertes e imersos, na solidão salgada dos cais. Presos à areia, são esvaziados de seus significados, não passam de amontoados de madeiras envelhecidas, aguardando pacientemente que venham seus navegadores, que os lancem à felicidade das águas, para assim imbuí-los novamente da vida para qual foram criados. Mas é interessante notar que, em todas as fotografias dessa série, inexiste a presença de qualquer figura humana, permitindo que esses registros possam ser lidos como espaços onde se inscrevem, de forma mais ou menos flagrante, a questão insondável da ausência. Questão esta que se revela num exemplo claro, quando a artista contrapõe a mesa de xadrez vazia com o barquinho solitário em segundo plano, nos lembrando em seu registro, que esses objetos não deixam de existir, não desaparecem do mundo quando esquecidos, quando não procurados pelos olhos dos homens.Mas não é só a melancolia da espera, a tristeza da ausência, que nos permite enquadrar essa série de fotografias em algum espírito romântico: os barcos também falam, e sobretudo falam, de nostalgia. Pertencentes a uma comunidade pesqueira de Guaratiba, lar natal de Fernanda Miguel, os barcos, além de celebrar o amor incondicional que a artista confessa ter pela comunidade vizinha à sua antiga casa, podem ter sido inconscientemente escolhidos como objetos emblemáticos de algo sempre presente durante sua infância e adolescência, talvez um desejo de simbolizar essa volta a tempos felizes.Como se vê, as fotografias da artista são imagens de algum aguardado retorno, seus barcos são tentativas de congelar, de petrificar eternamente, essa tão ansiada volta. Representações metafóricas dos que esperam, coração apertado, pela volta dos que foram ao mar trazer o alimento que os sustenta, metáfora dos próprios barcos que esperam a volta dos seus pescadores para levá-los as carícias das águas, metáfora da própria Fernanda nessa sua espécie de vontade de reviver a infância. E antes de tudo, um simbolismo do príncipio mesmo da fotografia, do seu fazer, que nada mais é que também saber aguardar o instante ideal a ser capturado, aquele que, seja na superfície do papel fotográfico, seja nos relevos da nossa saudade, merece existir p’ra sempre.
Luis Moutinho


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Um comentário:
Lembro de quando vc me falou a respeito dessa sessao de fotos. Sinto falta de tudo isso, das conversas, dos momentos, de ti. Bom poder te encontrar em tua arte.
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